Solstaria

Por que eu ainda sinto saudade de quem me fazia mal?

Ela chega de lado. Uma música no mercado, o lado da cama em que você ainda não dorme, uma piada que só ele ia entender. Depois vem o aperto no peito, e grudada nele uma espécie de vergonha, porque você lembra muito bem como foram os últimos meses e está aqui do mesmo jeito.

Sentir falta dele não é um veredito

A primeira coisa que o aperto faz é abrir uma discussão. Se era tão ruim assim, por que dói ficar sem ele? Vai ver você exagerou. Vai ver desistiu cedo demais. À uma da manhã isso convence, e se apoia num engano: achar que a saudade mede o quanto alguém fazia bem a você.

Não mede. Mede o espaço que a pessoa ocupava. Ele estava nas suas manhãs, no seu celular, nos seus fins de semana, até no seu jeito de contar uma história. Tire algo desse tamanho de uma vida e sobra um buraco, tenha sido bom para você ou não. Dá para sentir uma falta enorme dele e ter feito certo em ir embora.

A memória guarda as noites boas e arquiva as semanas

Repare no que volta. As noites boas voltam inteiras: a luz da cozinha, a frase dele que fez você rir até precisar sentar. As semanas ruins voltam como uma linha. «A gente estava numa fase difícil.» Uma tem cor e som. A outra é a etiqueta de uma caixa que você não abre.

Não é você mentindo para si mesma. A cabeça costuma guardar a dor em resumo. Só que aí a comparação que você faz de noite já vem viciada: algumas cenas completas contra uma manchete, e as cenas ganham. As semanas tiveram tantas horas quanto as noites, e você esteve em todas, medindo o humor dele antes de abrir a boca.

Do que talvez você sinta falta no lugar dele

Uma parte é a rotina. O bom-dia no WhatsApp, alguém para quem mandar a foto do cachorro esquisito da rua, uma resposta pronta para «o que você vai fazer no sábado?». Isso doeria depois de qualquer namoro, até de um tranquilo. É o costume de ter companhia, e não precisa ser ele.

Outra parte é quem você era no começo. Mais leve, mais engraçada, segura de que era querida. Ele estava por perto quando essa versão sua andava pela casa, então a memória guardou os dois juntos. Mas aquela era você. Não é uma coisa que ele levou embora.

E outra parte, sendo sincera, é o alívio. Depois de cada fase ruim tinha um momento em que ele amolecia: um pedido de desculpas, a mão nas suas costas, uma noite gostosa vinda do nada. Boa parte do tamanho daquele momento vinha dos dias anteriores. Água gelada tem um gosto incrível quando você está com sede desde terça.

Por que o carinho incerto prende mais

Quando alguém é carinhoso de um jeito constante, você para de vigiar. O carinho está ali, e a sua atenção vai cuidar do resto da vida. Quando ele chega sem padrão, um amor num dia e sumido no outro sem motivo que você encontre, você nunca consegue parar de vigiar. Estuda o rosto dele, as respostas, o jeito de fechar a porta. Assim uma pessoa ocupa quase toda a sua cabeça dando bem pouco.

Por isso o puxão que você sente agora não mede a profundidade do amor. Muito dele é atenção que ficou treinada numa pessoa só por muito tempo e que ninguém avisou que já pode descansar. Nada disso diz o que ele é nem por que era assim. Você não precisa resolver essa parte.

O que «me fazia mal» quer dizer aqui

Esta página fala de uma relação que doía e desgastava: mais dias difíceis do que bons, e você menor no final. Se o que existia era medo, se ele controlava aonde você ia ou quem você via, ou você temia o que ele pudesse fazer, esta página não é a ajuda certa e uma pessoa que conhece esse terreno é.

Onde a astrologia entra

Um mapa não sabe dizer se ele fazia bem a você; disso você sabe mais do que o mapa. O que ele oferece são duas palavras para as duas metades da saudade. Vênus descreve o que você acha bonito, e o que você achou bonito nele existia de verdade; os meses difíceis não apagam isso. A Lua descreve o que tem cara de casa, e casa é o que ficou conhecido, que nem sempre foi o mais gentil. Na tradição, a Lua também é a mais lenta. Você decidiu há semanas, e ela continua pondo duas xícaras na mesa.

É um jeito de pensar, não uma sentença. A astrologia não diz o que ele sente nem o que ele fará, e também não manda você voltar ou se afastar. O que ela pode dar é uma frase mais calma do que «qual é o meu problema», e o seu signo lunar é um bom começo.

Olhe o seu próprio mapa já que está aqui

Hoje à noite comece pela sua Lua: ela descreve o que você reconhece como casa. Depois olhe Vênus ao lado, pelo que você achou bonito nele e pode guardar.

Data de nascimento
Hora de nascimento

Nada do que você digita é enviado para lugar nenhum. O mapa é calculado no seu navegador e fica guardado neste aparelho.

Quando bater hoje à noite

Trate a onda como o tempo que faz lá fora, não como uma pergunta que você precisa responder. Ela sobe, chega no alto e desce. Diga em voz alta o que é: «Estou com saudade dele». Não «eu errei», não «eu devia ligar». Só a primeira frase. É verdade, e não pede nada de você.

Devolva o detalhe às semanas

Num dia mais calmo, escreva três dias comuns da parte difícil. Não a pior briga: uma quarta-feira qualquer. O que você temia ao acordar, o que engoliu no jantar, como pegou no sono. Escreva como cenas, com o mesmo detalhe que a sua cabeça dá às noites boas.

Você não está montando um processo contra ele. Está colocando as duas metades na mesma resolução, para que a quarta-feira possa voltar junto com a luz da cozinha.

Responda a cada tipo de saudade em separado

  • Se for a rotina, dê a cada costume um endereço novo. A foto do cachorro esquisito pode ir para uma amiga que responda. O bom-dia pode virar uma linha para você mesma sobre o dia que começa. E o sábado ganha de novo uma resposta pronta: o mesmo café, a mesma piscina.
  • Se for quem você era no começo, faça a lista do que ela fazia. Provavelmente via mais gente, usava a jaqueta chamativa, topava os convites. Escolha uma coisa e faça esta semana.
  • Se for o alívio, dê nome quando ele vier: «Estou com saudade do momento em que parava de doer». Não é o mesmo que sentir falta de um namoro bom, e dizer isso tira um pouco do brilho.

Antes de escrever para ele

Se der vontade de mandar mensagem, pergunte antes de qual das três partes ela saiu. Uma mensagem enviada para recuperar a rotina, ou o alívio, pede a ele uma coisa que você encontra em outro lugar, por um preço menor.

Para as amigas que viram você passar por tudo aquilo, às vezes é mais difícil contar que a saudade veio. Vale procurar alguém que não suspire antes de ouvir: uma amiga que não acompanhou essa história, alguém que leia mapas e queira olhar a sua Lua e a sua Vênus com você, ou uma psicóloga, se as noites não aliviarem.

Perguntas frequentes

Sentir saudade dele significa que eu errei ao terminar?

Não. Sentir falta de alguém mostra quanto do seu dia a dia essa pessoa preenchia, não se ela fazia bem a você. Os motivos que levaram você a sair eram verdadeiros no dia em que saiu, e uma noite sozinha não muda isso.

Por que eu só lembro das partes boas?

Momentos bons costumam ficar guardados como cenas completas, enquanto fases longas e difíceis viram uma frase. Lado a lado, as cenas parecem mais reais. Escrever com detalhe alguns dias comuns da parte difícil coloca as duas coisas de novo em pé de igualdade.

É normal sentir alívio e saudade ao mesmo tempo?

É. O alívio tem a ver com o fim da parte difícil; a saudade tem a ver com o espaço que ele deixou. São respostas a perguntas diferentes, então uma não anula a outra.

A astrologia pode me dizer se a gente deveria tentar de novo?

Não. Um mapa pode descrever o que você acha bonito e o que ficou conhecido, e isso talvez ajude a entender por que essa história é tão difícil de soltar. Ele não sabe dizer o que ele fará nem se uma segunda vez seria diferente.

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